A lista nominal dos aprovados foi anunciada. Em direção a ela milhares de jovens dirigem-se. Em cada um, o sonho de encontrar seu nome como aprovado no concurso vestibular, o seu ingresso no curso superior. Além de levarem seus próprios anseios, levam também as esperanças e os sonhos de seus pais e, talvez, a expectativa da sociedade à qual pertencem.

   Assim, na lista dos aprovados, cada um busca um nome. O seu próprio nome. O lugar mais sagrado.

   Sim. Lá está seu nome. O grito da vitória brotado no fundo do seu ser. Vitória essa conquistada com muita dedicação, muito esforço, abdicação do lazer em favor da preparação para um dos grandes desafios da sua vida.

   O abraço forte daqueles que a ele estão ligados, pelo amor, pela estima, pela amizade ou pela fé compensa a dedicação pela causa do sucesso. Descortina-se diante de si um futuro brilhante, mesmo que ainda seja na dimensão imaginária. Fará parte agora de um privilegiado grupo de pessoas que ingressam no curso superior. Para ele, o vestibular passou a ser uma página virada na história da sua vida.

   Porém, um grande número deles não encontra o lugar sagrado na lista. O seu nome nela não consta. Não passou no vestibular. Uma angústia tomará conta do seu existir e a pergunta fatalmente virá ao seu pensamento: “O que vou fazer agora?”.

   Se a escolha profissional foi feita por vontade própria, da ordem de seu desejo, atendendo à vocação como forma de chamamento, então ele provavelmente mergulhará em si mesmo e se fechará, tendo em vista que sentirá o “mundo desabando”. Estará só com seus pensamentos de desilusão, de sentimento de injustiça, de indignação.

   Entrará, então, em contato com sua subjetividade, um local de silêncio total. Uma dimensão serena em que o futuro estará sendo criado (ou recriado). Um local à sua disposição (como também de todos nós), embora muitas vezes não se tome conhecimento de sua existência, nas horas de inquietação. É um santuário interior, quando se está só, com a alma desencantada, em que se repele a realidade externa, e o mundo interior se torna possível. É nessa dimensão que ele estará, por algum tempo.

   Não se trata de solidão, o vazio que invade a vida tirando-lhe o sentido. É apenas a possibilidade de estar só, consigo mesmo, buscando nesse gesto singular o esplendor do reencontro com o próprio ser.

   Dessa dimensão ele sairá no seu devido tempo.

   Feliz dele se, ao sair, encontrar na realidade externa o apoio do pai, como presença real em sua vida, que representa a força, o respeito e a segurança para esses seus passos vacilantes, diante desse vendaval de adversidade. Um pai que tenha qualidades de diálogo, o que o fará diferente dos outros homens.

   Bom se encontrar também na figura da mãe o continente, o porto seguro, o apoio e o beijo que tem o dom de curar. A mãe que, quando em criança, aplicava-lhe o curativo para o ferimento do corpo e que agora tem o remédio que é o bálsamo para a alma em desatino. Que encontre a serenidade do olhar da mãe como vínculo simbólico da vida, já que se pode postular que o olhar entre mãe e filho é o herdeiro do cordão umbilical. E na certeza do abraço da mãe, reencontre o santuário da paz, onde um dia viveu, antes de ter nascido.

   Certamente ele retornará ao seu grupo social, em que, nos amigos, haverá de encontrar o conforto e o preenchimento do vazio existencial.

   Dessa forma, se ele encontrar o refúgio naqueles que lhe são caros, concluirá que o fato de não ter sido aprovado no vestibular não é tudo, porque, se assim fosse, nada mais lhe restaria na vida, e então fatalmente sucumbiria diante da adversidade, por estar, então, emocionalmente desestruturado. Esse refúgio o fará compreender, também, que o vestibular faz parte da vida como desafio, contingência e experiência individual. Que o mesmo aconteceu numa etapa da sua vida, na qual ele não conseguiu ser vitorioso, por existirem variáveis (disputas e concorrências por uma vaga) que foram além de suas possibilidades. Enfim, desse refúgio dependerá o novo despertar do seu desejo, para que ele torne a buscar a profissão de seus sonhos e retome o caminho do reencontro, que nem sempre acontece na primeira vez. Se a profissão escolhida for fator intrínseco do seu pensamento, haverá de tentar quantas vezes forem necessárias, para realizar seu projeto de vida, que já deverá ter sido idealizado.

   Então, não ter sido aprovado não se traduz em gravidade severa, pois grave é tudo aquilo que a vida não concede nova oportunidade.

   Também não houve fracasso, se fez conscientemente o que lhe cabia fazer, dentro da sua capacidade de alcance e com os recursos físicos e intelectuais de que dispunha. Fez a sua parte não faltando aquilo que era lícito e esperado dele. Fez tudo o que podia. Não se pode, pois, ir além do tudo. Cada aparente insucesso fornece a força necessária para que o passo seguinte seja dado com mais segurança.

   E como os pais podem preparar o filho para essa possível adversidade?

   Estruturá-lo para que trilhe o seu próprio caminho. Que saiba, nesse seu caminhar, discernir o bem do mal e o certo do errado; que saiba que tem direitos, mas que tenha consciência dos seus deveres a cumprir.

   Prepará-lo para suportar as frustrações.

   Alertá-lo de que a realidade externa impõe certas perdas. Quando ela apresenta fatos dos quais não se pode fugir, mas que são, no entanto, necessários para que seja possível estruturar-se e crescer, muitas vezes, é preciso perder. Essa é uma tarefa individual, como individual é a tomada de consciência (e a nossa também) de que nada se pode fazer para evitar as perdas e as marcas do tempo, tendo em vista que se constituem em fatores inerentes para o contínuo e infindável desenvolvimento humano.

   Enfim, estruturá-lo para que seja lembrado, no futuro, como alguém que soube vencer as dificuldades e que também teve a sabedoria de aproveitar as oportunidades para crescer.

   Que aprenda o que o tempo lhe ensinou, já que o passado é ensinamento sobre o qual se deve refletir e não se reproduzir.

   Que seja lembrado também como alguém que fez história impressionando o mundo.

   Que respeite especialmente o indispensável, como o alimento, o trabalho, o amor, o acreditar em si mesmo, o meio ambiente, a saúde, os amigos, a ação, a família, Deus… enfim, esses valores existentes além do vestibular e que podem ser considerados únicos na vida. E se, por ventura, algum desses valores tenha faltado, que ele tenha buscado no seu interior, na sua capacidade de ficar só, a força, a criatividade, a inspiração e a vontade indomável para encontrar o caminho da saída.

 

 

                                                         Ivo Carraro é Professor e Psicólogo