Quanta literatura a respeito! Quantas belas histórias de amor vividas! Quantos dissabores pelas frustrações amorosas!

Que paradoxo é esse? Onde o bom e o belo fazem  sofrer?

Afinal, o que é o amor? Qual é a sua causa, já que tudo na vida tem uma causa, seja consciente ou mesmo inconsciente?

Para compreender melhor a manifestação desse mistério da vida, especificamente na adolescência, torna-se necessário retroceder em pensamento para a pré-história humana. O homem das cavernas, nos primórdios da humanidade.  A evolução.

Lá se encontrava então o ancestral humano.

Presumidamente só; e o seu cérebro mais primitivo tinha apenas o objetivo de atender e garantir a sua sobrevivência. Um local para se abrigar das intempéries, uma forma de se aquecer e um jeito de saciar sua fome e sua sede. Insira-se aí o instinto sexual.

O tempo passou. Milhares, milhões de anos. Tendo suas necessidades básicas satisfeitas, o homem sentiu-se em estado de incompletude, e,então,viveu as primeiras sensações de solidão. Diante desse estado de espírito, desenvolveu estruturas cerebrais ligadas às emoções. Buscou, então, indicam os estudos evolucionistas, o seu par do sexo oposto, visando constituir-se em um ser completo.

Assim, instala-se no seu psiquismo emocional o instinto do amor. Dois instintos, do amor e do sexo, que dão norte à vida humana.

O homem contemporâneo traz em sua memória genética esses dois instintos ancestrais.

A adolescência caracteriza-se como uma fase da vida humana, como se fosse a passagem obrigatória por uma ponte, em direção à vida adulta. Já se foi, é ou será adolescente. Não existe a possibilidade de se transpor da infância para o estado adulto. Há de se passar obrigatoriamente pelo estágio da adolescência.
Precede a adolescência um fenômeno biológico denominado puberdade, no qual ocorre o desencadeamento de um sistema cerebral que determina a produção de hormônios, que irão estimular o instinto sexual, como fator inerente à perpetuação da espécie.

É na adolescência que rapazes e moças se olham, encantam-se, enamoram-se e podem então se envolver em desenfreada paixão, causando possíveis alterações no seu estado emocional e, também, como conseqüência, em sua realidade externa, como no relacionamento familiar e aproveitamento escolar; sem falar no vestibular como ingresso para a vida profissional. E o desejo deles se manifesta explicitamente, como próprio dessa fase da vida e nestes tempos pós anos 60.

E talvez essa paixão tenha sua brevidade, apesar de ter parecido infinita enquanto durava. E como o cérebro ainda não desenvolveu estruturas responsáveis para o controle racional do instinto – a razão é a mais nova estrutura cerebral na evolução da espécie – alguns adolescentes considerarão o tempo breve de duração como mais uma experiência vivida, sem maiores conseqüências. Outros, no entanto, mergulharão em sua subjetividade e fechar-se-ão em si mesmos. Sentirão que o “mundo desabou” sobre eles. Estarão só com seus pensamentos de desilusão, de sentimento  de injustiça,  indignação, de decepção. Dessa dimensão, certamente sairão, no seu devido tempo,  mais estruturados como sujeitos de si mesmos, mais amadurecidos,  preparados para a vida adulta,  deixando gravadas em suas memórias as inesquecíveis  lembranças do que foi  bom e  belo vividos.

Habitarão também na memória deles muitas interrogações, entre as quais: como pode ser belo e bom e fazer sofrer?

E aqueles adolescentes que não suportaram e não suportarão a brevidade da paixão? Quantos “Romeus” e quantas “Julietas” sucumbiram diante das paixões vividas!

Porém, se o tempo lhes permitir  ultrapassar esse período de turbulências afetivas, oriundas da paixão vivida, encontrarão um lugar mais sagrado, um santuário da paz: o instinto do amor, impulso alheio à razão.

E é nesse santuário que viverão juntos e se completarão, como era o anseio de seus ancestrais. Realizarão seus desejos, deixando marcas do bem no mundo. Respeitando as individualidades do outro, terão dado oportunidades para o amor prevalecer. Formarão história, que certamente será contada aos seus descendentes.

E no futuro longínquo, não se surpreendam se a bela história de amor se transformar em uma grande e bela amizade.

Ivo CARRARO é psicólogo, professor de pós graduação e Diretor Educacional do Curso Positivo – sede Batel –  em Curitiba – Paraná.